Portal Conexão SRN - Conectando você com a notícia!

Domingo, 23 de Agosto de 2026

Notícias/Municípios

Comunidade Calango preserva identidade quilombola e tradições no Sul do Piauí

Moradores preservam sementes crioulas e conhecimentos ligados à vida no campo

Comunidade Calango preserva identidade quilombola e tradições no Sul do Piauí
Comunidade Calango preserva identidade quilombola e tradições no Sul do Piauí / Foto: Conecta Piauí
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

O autorreconhecimento é um dos primeiros passos para que uma comunidade seja reconhecida oficialmente como remanescente de quilombo no Brasil. No interior do Piauí, esse processo tem transformado a forma como moradores enxergam a própria história, fortalecendo a identidade, a preservação do território e o acesso a políticas públicas.

Na comunidade Calango, localizada a cerca de 40 quilômetros de São Raimundo Nonato, na região da Caatinga, o reconhecimento quilombola começou de maneira inesperada para Cláudio Marques, liderança da comunidade. Na época, ele trabalhava como pedreiro e participava da construção de cisternas quando ouviu uma pergunta que até então não fazia parte do seu cotidiano: existia alguma comunidade quilombola naquela região?

Cláudio conta que, inicialmente, não sabia o significado do termo. A identificação veio a partir da própria realidade da comunidade, formada majoritariamente por pessoas negras e com uma trajetória de permanência e vínculos familiares construídos ao longo das gerações.

"Foi na época que começaram as construções de cisternas aqui na região. A gente não tinha. Aí apareceu a arquidiocesana, que estava fazendo cisternas na região, e na época eu era pedreiro. Fui chamado para trabalhar como pedreiro na construção. Foi lá que chegaram perguntando se tinha comunidade quilombola aqui na região. Como eu nunca tinha ouvido falar nisso, disse que não tinha. Aí explicaram que era uma comunidade que só tinha preto. Foi quando eu disse: agora eu conheço", relatou.

A comunidade Calango reúne atualmente cerca de 75 famílias e integra um território quilombola que se estende por seis municípios piauienses. Ao todo, a área possui aproximadamente 62 mil hectares e envolve quase duas mil famílias, sendo considerada a maior área quilombola do Piauí, a segunda maior do Nordeste e a terceira maior do Brasil.

O reconhecimento da identidade quilombola também abre caminho para outras etapas, como a certificação e o processo de titulação do território. A partir desse reconhecimento, políticas públicas específicas podem alcançar as comunidades, contribuindo para mudanças na infraestrutura, na produção e nas condições de vida dos moradores.

Além da relação com o território, a identidade quilombola também se manifesta na preservação de práticas tradicionais. Na comunidade Calango, uma delas é a conservação das chamadas sementes crioulas, variedades mantidas por agricultores ao longo das gerações e adaptadas às características do solo e do clima da região.

Entre as famílias que mantêm essa relação direta com a terra está Silvina Miranda. Mulher do campo e moradora da comunidade, ela cultiva diferentes espécies e preserva sementes utilizadas no cotidiano da produção rural. Entre elas está o girassol, usado também na alimentação dos animais. "Esse aqui é o girassol. Isso aqui é muito bom para galinha e para todo bicho. O que a terra permite aqui é feijão e mandioca", explicou.

Para Silvina, trabalhar na terra não representa apenas uma atividade de subsistência. O cultivo, a criação de animais e o contato cotidiano com a natureza fazem parte de uma forma de vida construída desde a infância e que ela pretende transmitir às próximas gerações. "A gente já é acostumado nisso. A gente nasceu e se criou. A gente fica doente no dia que não pode trabalhar. A gente gosta, a gente faz porque gosta. Não é nada fácil, mas é prazeroso", afirmou.

A relação com o campo também influencia a escolha de permanecer na comunidade. Mesmo diante das dificuldades da vida rural, Silvina afirma que não pretende trocar a rotina do interior pela cidade. "Os outros falam: você não quer morar na cidade? Eu nunca quero, nunca quero. Só quero ir passear e voltar. Passear e voltar. O dia de ir comprar o chinelo, quando acabou", contou.

Na comunidade Calango, a preservação das sementes, o trabalho na agricultura e a permanência das famílias no território se conectam ao processo de valorização da identidade quilombola. Para moradores como Cláudio e Silvina, reconhecer essa história significa também preservar práticas e conhecimentos que atravessam gerações.

A trajetória da comunidade mostra que o reconhecimento quilombola vai além de uma definição formal. Ele envolve memória, ancestralidade, território, trabalho e a continuidade de modos de vida que permanecem presentes no cotidiano das famílias.

FONTE/CRÉDITOS: Conecta Piauí
Comentários:

Veja também

King Pizzaria & Choperia
King Pizzaria & Choperia

Crie sua conta e confira as vantagens do Portal Conexão SRN

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!

Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )