Se dependesse da China, nenhum astronauta ficaria sem comunicação ao passar pelo lado oculto da Lua. Os 40 minutos de silêncio pela passagem da missão Artemis II na noite de segunda-feira por lá são um problema dos americanos. Os chineses ainda não mandaram gente para a órbita lunar, mas têm por lá dois satélites de comunicação, usados para manter contato com as naves robóticas que despacharam para explorar o lado oculto em 2019 e 2024.
Embora não forneça detalhes, a China planeja enviar uma tripulação de taiconautas (como são chamados os astronautas chineses) à Lua até 2030. E eles terão como se comunicar o tempo todo. A China é líder na exploração do lado mais misterioso da Lua. Foi o primeiro país a enviar uma nave-robô capaz de pousar lá, a Chang’e 4, em 2019. E em 2024 fez história mais uma vez, quando a Chang’e 6 trouxe amostras dessa parte da Lua de volta à Terra. As duas missões chinesas revelaram que o lado oculto da Lua tem uma crosta mais espessa e uma evolução diferente do lado visível da Terra.
Satélites repetidores
Para a comunicação no lado oculto ou escuro da Lua, a China usa satélites repetidores especializados: o Queqiao-1 (lançado em 2018) e o Queqiao-2 (2024). Esses satélites retransmitiram sinais de carros-robôs e módulos de pouso no lado escuro para o centro de controle em Pequim.
A Lua bloqueia o sinal de satélite porque ela é, literalmente, um “paredão” de rocha entre o transmissor e a Terra. Mas para o sinal de rádio funcionar bem a longas distâncias, é preciso de uma linha de visada. Isso significa dizer, em linhas gerais, que a antena que emite e a que recebe precisam “enxergar” uma a outra, sem um corpo sólido no meio.
Como a Lua está em rotação sincronizada, a mesma face fica sempre voltada para a Terra. A face oposta (lado oculto) nunca tem linha reta direta com a Terra. Então as ondas de rádio não conseguem atravessar o corpo da Lua e a comunicação direta fica impossível. A China resolveu isso com satélites repetidores colocados em posições especiais no sistema Terra-Lua, chamados pontos de Lagrange ou órbitas “halo”.
O Queqiao-1 foi colocado em órbita ao redor do ponto L2, atrás da Lua, de modo que ele “vê” ao mesmo tempo a Terra e a região do pouso da sonda Chang’e-4; assim, recebe o sinal do módulo lunar no lado oculto e o retransmite para a Terra, e vice-versa. Já o Queqiao-2, em órbita elíptica lunar, faz um papel similar para as missões mais recentes, permitindo comunicação contínua com a face oculta e o polo sul lunar apesar do bloqueio físico da Lua.
Segundo sites especializados, a China planeja uma constelação de satélites Queqiao. Esses satélites seriam usados para comunicações, navegação e sensoriamento remoto. Essa constelação poderia estar operacional até 2030.
Halo de luz
Enquanto isso, a Missão Artemis continua surpreendendo o mundo com as imagens que seus tripulantes mandam do espaço. Mais de 57 anos após o célebre registro do “amanhecer da Terra” (Earthrise), feito pela missão Apollo 8, os astronautas da Artemis II capturaram uma nova perspectiva do planeta: o “pôr da Terra” visto do espaço. A imagem — feita anteontem minutos antes de os astronautas entrarem em um período de silêncio de rádio, ficando isolados da Terra por 40 minutos enquanto sobrevoavam o lado oculto da Lua — foi divulgada ontem pela Nasa e pela Casa Branca, junto com o registro de um eclipse solar.
A foto mostra a Terra se ocultando atrás do horizonte lunar, fenômeno conhecido como “Earthset”. O Sol se pôs atrás da Lua, revelando tênues filamentos de sua atmosfera e criando um halo de luz ao redor da borda lunar. A vista foi ampliada por um campo de estrelas e planetas, incluindo Saturno e Vênus.
O novo registro remete diretamente a uma das imagens mais icônicas da exploração espacial. Em 24 de dezembro de 1968, durante a missão Apollo 8, os astronautas Bill Anders, Frank Borman e Jim Lovell registraram um “Earthrise”, no primeiro sobrevoo lunar tripulado da História.
Na Artemis II, os astronautas Reid Wiseman, Christina Koch, Victor Glover e o canadense Jeremy Hansen iniciaram ontem o retorno à Terra após completarem o voo ao redor da Lua, durante o qual observaram regiões pouco exploradas do satélite.
— Sempre escolheremos a Terra — disse Koch, assim que os tripulantes restabeleceram a comunicação. — Sempre escolheremos uns aos outros.
Ao emergirem do outro lado da Lua, os astronautas presenciaram mais uma visão de tirar o fôlego: um eclipse solar, de um ponto de vista jamais testemunhado por qualquer ser humano. O piloto Victor Glover disse que foi difícil capturar a imagem com uma câmera, mas a face da Lua estava suavemente iluminada pelo brilho da Terra.
— Provavelmente, os humanos não evoluíram para ver o que estamos vendo — disse Glover, maravilhado. — É realmente difícil de descrever. É incrível.
10 mil fotos
Durante o eclipse, os astronautas também puderam ver planetas como Marte, Vênus e Saturno, além de estrelas e o brilho da Terra, ou seja, a luz refletida pelo planeta.
Os astronautas, que tiraram cerca de 10 mil fotos, também avistaram anéis ao redor da Bacia Orientale, uma das crateras de impacto mais jovens da Lua. Antes dessa missão, Orientale nunca havia sido vista por olhos humanos.
(Com New York Times)
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